Matemática e esperança: como o trabalho de pesquisadores da área impactam a vida da humanidade
Comemorado no último dia 14, o Dia Internacional da Matemática celebrou o tema Matemática e Esperança
CULTURANOTÍCIAS
3/24/20266 min read


À primeira vista, a combinação entre matemática e esperança pode parecer estranha, já que uma visão comum da matemática é que ela é fria, lógica e apenas numérica. Contudo, ela é uma forma complexa de ver o mundo, de transformá-lo, podendo ser calorosa, emocionante, socialmente motivada e, até mesmo, promotora da esperança.
Isso certamente é verdade ao se olhar para a história da matemática e da computação, cujos avanços transformaram o mundo. Tal fato também se aplica às pesquisas realizadas no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, que vem gerando esperança em diversas frentes de trabalho e pesquisa.
Neste ano, celebrou-se em 14 de março o Dia Internacional da Matemática, com o tema: “Matemática e Esperança”. Para celebrarmos esse dia, vamos explorar como a esperança e o ICMC estão conectados?
A matemática e a esperança
No ICMC, há uma equipe de docentes e pesquisadores da área da Educação Matemática que frequentemente exploram abordagens como a leitura crítica do mundo através da matemática, ou mesmo, a vertente denominada Educação Matemática Crítica.
Ambas as abordagens são pautadas em autores renomados, como o filósofo alemão Ernst Bloch, o patrono da educação brasileira Paulo Freire, e o celebrado educador matemático Ole Skovsmose, para mencionar alguns. Assim, exploram as relações entre os temas da esperança, educação e matemática.
Segundo a professora do ICMC, Ana Carolina Faustino, por meio da “Pedagogia Crítica de Paulo Freire e da Educação Matemática Crítica de Ole Skovsmose, podemos dizer que a esperança nos faz vislumbrar um horizonte futuro mais justo e inclusivo, e caminhar em direção a ele”.
Além disso, Faustino afirma que “a esperança quando relacionada com a matemática pode significar a democratização do ensino para estudantes de grupos marginalizados, possibilitando ampliar seus horizontes futuros. Isso significa aprender matemática para interpretar e construir um mundo mais justo socialmente para todas as pessoas”.
A abordagem da leitura do mundo segundo a matemática é explorada no ICMC principalmente dentro dos cursos de Licenciatura em Matemática e Licenciatura em Ciências Exatas, que formam docentes capazes de enxergar a realidade a partir da matemática, assim como estimular que mais pessoas conquistem essa capacidade crítica, habilidade ideal em inúmeras situações da vida, como na leitura de dados, de gráficos, para fazer julgamentos e escolhas bem embasadas e evitar enganações, por exemplo.
“Para os professores, significa acreditar na potencialidade de todos os estudantes em aprender matemática e trabalhar diariamente na sala de aula de forma ética e justa”, conta Faustino.
Outro docente do ICMC cujo trabalho se relaciona com a esperança é o professor Denner Dias Barros, que coordena o Esperançar, grupo de pesquisa e extensão com enfoque em estudos e ações no campo da Educação Matemática. Criado em 2024, o grupo busca desenvolver atividades alinhadas aos princípios da Educação Inclusiva, ou seja, “que promovem a participação de todos os estudantes, considerando suas especificidades, bem como os princípios da justiça social”, explica Denner.
O nome Esperançar faz referência à Paulo Freire. De acordo com Denner, “ao destacar a importância da esperança na Educação, Freire diferencia a esperança do verbo ‘esperar’ – uma atitude passiva daquele que espera que a mudança aconteça, mas que não age – da esperança do verbo ‘esperançar’ – de quem acredita na transformação, mas entende que precisa agir para que ela aconteça”.
Atualmente, o grupo conta com a participação das professoras Ana Carolina Faustino e Michela Tuchapesk da Silva, ambas docentes do ICMC/USP, e reúne estudantes de graduação e pós-graduação. O professor Denner informa que “as reuniões ocorrem uma vez ao mês, às quintas-feiras, com o objetivo de discutir pesquisas, contando ainda com a eventual presença de pesquisadores externos. Além disso, no âmbito da extensão, são realizados encontros mensais às terças-feiras. As pesquisas têm abordado temáticas como inclusão de pessoas com deficiência, Libras, questões de gênero, sexualidade, etnicorraciais, interseccionalidade, diversidade e diferença”.
O grupo está aberto à participação de voluntários de diferentes cursos, tanto no âmbito das atividades de pesquisa quanto nas ações de extensão. Os interessados podem entrar em contato por meio do e-mail: esperancar@icmc.usp.br
Sobre a relação entre matemática e esperança, Denner acredita “na potência da diversidade e na valorização das diferenças, reconhecendo a necessidade de construir uma matemática mais inclusiva para todas as pessoas. Além disso, diante de grandes desafios sociais, econômicos, políticos e ambientais que enfrentamos, a matemática pode contribuir para processos de transformação. ”
Portanto, a matemática nos dá ferramentas para enxergar além das incertezas e criticidade para realizar escolhas seguras. Ela é essencial para enfrentarmos problemas globais, seja encontrando maneiras otimizadas de distribuição de recursos de forma equitativa ou criando modelos para entender e reverter danos ambientais. Já a matemática aliada à computação fornece lentes necessárias para as transformações sociais, que precisam ser planejadas para atender princípios éticos, com muita responsabilidade, uma vez que esses conhecimentos também podem promover mazelas sociais, controle e alienação.
E a computação, pode trazer esperança?
A computação também pode trazer esperança. Um exemplo de como o ICMC tem impactado a sociedade de forma ampla são as recentes pesquisas e implementações na área de tecnologias para a governança, ou seja, que auxiliam governos municipais, estaduais e até federais na gestão de informações, na tomada de decisões baseadas em evidências e na melhoria da oferta dos serviços públicos. Desde tornar o sistema judiciário mais eficiente e os dados dos cidadãos mais seguros, até estimular a formulação de mais políticas baseadas em evidências científicas nas áreas de saúde e segurança pública, a variedade de projetos sendo desenvolvidos com impactos positivos na sociedade brasileira é vasta.
Dentre elas, uma proposta que vem recebendo reconhecimento é o Agents4Gov, um projeto guarda-chuva que serve como incubadora para a criação e implementação de estudos na área da inteligência artificial (IA) aplicada à cenários governamentais. Financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), um produto concreto da família Agents4Gov é o LLM4Gov, um grande modelo de linguagem treinado em parceria com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), capaz de auxiliar profissionais do direito em tarefas diárias, como na anonimização de peças jurídicas, análise dos temas das peças, promovendo maior segurança sobre os dados dos cidadãos e agilidade nas análises.
No Brasil, o sistema judiciário é notoriamente sobrecarregado com processos, principalmente quando comparado com a maioria dos outros países. Daí a motivação para o LLM4Gov.
De acordo com o coordenador do projeto, professor Ricardo Marcacini, “a relação entre o Agents4Gov e a esperança, está justamente no poder da matemática como base para uma computação que serve às pessoas”. Para ele, a computação “permite usar algoritmos e modelos matemáticos para resolver problemas reais da sociedade, como a formulação de políticas públicas baseadas em dados concretos e não apenas em achismos ou subjetividade”.
O professor conta que a equipe do projeto Agents4Gov possui grande esperança em “aumentar a eficiência pública em áreas essenciais como saúde, educação e segurança, otimizando recursos que são sempre escassos e o melhor uso de dinheiro público”. Dessa maneira, iniciativas como o Agents4Gov podem mostrar que “a computação, quando bem fundamentada e aplicada com responsabilidade, pode trazer mais maturidade para a gestão pública e transparência para o cidadão”, conta.
Essa linha de pesquisa que relaciona a computação e a governança vem contribuído para a construção de arquiteturas inteligentes capazes de preencher uma lacuna entre a matemática, a computação e a mudança social, representando uma esperança de boa governança. No caso do sistema jurídico, esperança de que ele seja mais eficiente, permitindo aos cidadãos acessarem seus direitos de forma mais efetiva.
“Espero que possa ser uma pequena contribuição para um futuro onde a tecnologia é uma aliada para uma sociedade mais justa e funcional” comenta Marcacini.
O dia internacional da matemática
O dia internacional da matemática é uma celebração mundial liderada pela União Matemática Internacional e oficialmente proclamada pela Unesco. Criado para aumentar a conscientização sobre o papel essencial que a matemática desempenha na ciência, tecnologia e sociedade, o dia destaca como conceitos matemáticos diversos são, na verdade, a base do mundo contemporâneo, desde os algoritmos de seu telefone celular até os modelos que rastreiam as mudanças climáticas.
A cada ano, o dia internacional da matemática é comemorado em 14 de março, data também chamada por dia do Pi (π), correspondendo aos três primeiros dígitos da constante matemática π≈3,14.
O tema de 2026, “Matemática e Esperança”, foi inspirado por frase atribuída ao filósofo e matemático grego, Tales, aquele que estudamos na escola, do Teorema de Tales, “A esperança é o mais universal de todos os bens humanos”.
Assim, comemorar o dia internacional da matemática, em especial em 2026, é lutar pela construção de uma ciência matemática promotora da justiça, emancipatória dos cidadãos, criativa, inovadora, construtora de um futuro melhor.