MARÇO AMARELO Especialista do HE-UFPel fala sobre endometriose, diagnóstico, tratamento e prevenção
Doença ginecológica crônica afeta cerca de oito milhões de brasileiras e pode impactar a qualidade de vida e a fertilidade; médica do Hospital Escola esclarece sintomas, diagnóstico e cuidados
SAÚDENOTÍCIAS
3/17/20263 min read


Pelotas (RS) - O Março Amarelo, campanha dedicada à conscientização sobre a
endometriose, chama atenção para uma doença ginecológica que afeta milhões de
mulheres e que, muitas vezes, demora anos para ser diagnosticada. Segundo dados do
Ministério da Saúde, estima-se que cerca de oito milhões de brasileiras convivam com a
condição, que pode causar dor intensa e comprometer a qualidade de vida.
Para esclarecer dúvidas sobre sintomas, diagnóstico e tratamento, a médica
ginecologista e obstetra Glaucia Alves de Carvalho, do Hospital Escola da Universidade
Federal de Pelotas (HE-UFPel/Ebserh), explica os principais aspectos da doença e
reforça a importância de buscar avaliação médica diante de sinais persistentes.
O que é a endometriose e como ela se desenvolve no organismo?
A endometriose é uma doença ginecológica crônica em que um tecido semelhante ao
que reveste o interior do útero, chamado endométrio, passa a crescer fora do útero.
Esse tecido pode se implantar em órgãos da pelve, como ovários, trompas, intestino
ou bexiga. Assim como o endométrio normal, ele responde aos hormônios do ciclo
menstrual, podendo inflamar e causar dor.
Quais são os principais sintomas e sinais de alerta?
Os sintomas mais comuns são cólicas menstruais intensas, dor pélvica crônica, dor
durante a relação sexual, dor ao evacuar ou urinar durante o período menstrual e
dificuldade para engravidar. Também podem ocorrer fadiga, distensão abdominal e
alterações intestinais. A intensidade dos sintomas pode variar bastante entre as
mulheres.
Toda cólica menstrual intensa pode ser considerada normal?
Não. Cólicas leves a moderadas podem ocorrer durante a menstruação, mas dores
muito intensas, que impedem atividades do dia a dia, como trabalhar ou estudar,
precisam ser investigadas. Esse tipo de dor pode ser um sinal de endometriose ou de
outras condições ginecológicas.
Por que o diagnóstico da endometriose costuma demorar anos?
Segundo a médica, muitas mulheres acabam normalizando a dor menstrual intensa.
Além disso, a doença pode apresentar manifestações diferentes em cada paciente, o
que dificulta o reconhecimento. Em muitos casos, as pacientes convivem com os
sintomas por anos antes de procurar atendimento especializado.
Quais exames são fundamentais para confirmar a doença?
A avaliação começa com uma consulta ginecológica detalhada. Exames de imagem,
como ultrassonografia pélvica com preparo intestinal e ressonância magnética, podem
ajudar a identificar lesões de endometriose. Em alguns casos, a confirmação definitiva
ocorre durante cirurgia laparoscópica.
A endometriose pode afetar outros órgãos além do útero?
Sim. A doença pode atingir ovários, trompas, intestino e bexiga e, em situações mais
raras, outras regiões do corpo. Quando isso acontece, podem surgir sintomas
intestinais ou urinários associados ao período menstrual.
Existe relação entre endometriose e infertilidade?
Sim. A endometriose pode dificultar a gravidez porque pode alterar a anatomia da
pelve, provocar inflamação ou afetar o funcionamento dos ovários e das trompas.
Ainda assim, muitas mulheres com a doença conseguem engravidar naturalmente ou
com o auxílio de tratamentos de fertilidade.
A doença tem graus ou estágios diferentes?
Sim. A endometriose é classificada em diferentes estágios, que variam de leve a grave,
conforme a quantidade, profundidade e localização das lesões. No entanto, a
intensidade da dor nem sempre está diretamente relacionada ao estágio da doença.
Quais são as opções de tratamento disponíveis?
O tratamento depende da idade da paciente, da intensidade dos sintomas e do desejo
de engravidar. Pode incluir medicamentos hormonais, analgésicos para controle da
dor, mudanças no estilo de vida e acompanhamento médico. Em alguns casos, a
cirurgia pode ser indicada.
Em quais situações a cirurgia é recomendada?
A cirurgia pode ser necessária quando a dor não melhora com tratamento clínico,
quando há comprometimento de órgãos como intestino ou bexiga ou quando a
doença está associada à infertilidade. O procedimento mais utilizado é a laparoscopia,
uma técnica minimamente invasiva.
A doença pode impactar a saúde mental das pacientes?
Sim. A dor crônica, as limitações nas atividades diárias e as dificuldades relacionadas à
fertilidade podem afetar o bem-estar emocional das pacientes. Por isso, o
acompanhamento psicológico e o apoio familiar podem ser importantes durante o
tratamento.
Que orientação você daria às mulheres que convivem com dores intensas e ainda
não buscaram atendimento?
A principal orientação é não normalizar a dor intensa. Se as cólicas ou dores pélvicas
estão interferindo na qualidade de vida, é fundamental procurar avaliação médica. O
diagnóstico precoce pode ajudar a controlar melhor a doença e evitar complicações.
Como as mulheres podem buscar atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS)?
O acesso se dá através das Unidades Básicas de Saúde, onde as pacientes serão
encaminhadas para o atendimento especializado nos Ambulatórios de Cirurgia
Ginecológica.
Sobre a Ebserh
O HE-UFPel faz parte da Rede Ebserh desde 2014. Vinculada ao Ministério da Educação
(MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais
universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma
gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas
unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de
Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o
desenvolvimento de pesquisas e inovação.