HU-Furg recebe profissionais de Angola para formação em saúde e tecnologia
Seis estudantes angolanos de mestrado e doutorado iniciaram atividades no hospital por meio do Acordo de Cooperação Técnica entre Brasil e Angola
SAÚDENOTÍCIAS
3/3/20265 min read


Rio Grande (RS) – O que significa atravessar um oceano para aprender e depois cuidar de centenas de pessoas? O Hospital Universitário Dr. Miguel Riet Corrêa Jr., da Universidade Federal do Rio Grande (HU-Furg), vinculado à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), recebeu os primeiros seis profissionais angolanos aprovados para cursos de mestrado e doutorado. A iniciativa integra o Acordo de Cooperação Técnica entre Brasil e Angola, do Governo Federal, e envolve as Gerências de Ensino e Pesquisa (GEP) e de Atenção à Saúde (GAS) do HU-Furg, bem como a Escola de Enfermagem da Furg (EEnf/Furg) e o Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PPGEnf).
Segundo o gerente de Atenção à Saúde, Rodrigo Terlan, participou da recepção aos estudantes, “O Hospital se sente lisonjeado e satisfeito em celebrar essa parceria. Trata-se de uma demonstração de que somos referência na formação de profissionais e, ao mesmo tempo, ampliamos nosso horizonte institucional ao receber estudantes de outro país, de outro continente”. Também pontuou que “essa troca de conhecimentos e de experiências fortalece a assistência, qualifica o ensino e enriquece todos os envolvidos. Presenciar essas vivências e compartilhar diferentes realidades é, sem dúvida, um dos aspectos mais significativos dessa parceria”.
A ação decorre do programa coordenado pela Agência Brasileira de Cooperação Internacional do Ministério das Relações Exteriores, que prevê a capacitação de 38 mil profissionais angolanos no Brasil ao longo de cinco anos, iniciados em 2024. Ao compartilhar experiências em ensino, inovação e assistência no Sistema Único de Saúde (SUS), os hospitais da Rede Ebserh contribuem para o fortalecimento do sistema de saúde angolano no enfrentamento de doenças infecciosas, epidemias e emergências sanitárias.
Para o gerente de Ensino e Pesquisa, Edison Barlem, “É com grande responsabilidade institucional que a Furg, por meio do PPGEnf e do HU-Furg/Ebserh, integra o Programa de Formação de Recursos Humanos em Saúde Brasil–Angola. Receber mestrandos e doutorandos angolanos não é apenas um ato acadêmico, mas um compromisso estratégico com a cooperação internacional, com o fortalecimento dos sistemas públicos de saúde e com a formação de lideranças qualificadas para a transformação social”.
Barlem também ressaltou os impactos da parceria na pós-graduação e na assistência. “No âmbito da Furg, esse movimento amplia a internacionalização da pós-graduação, fortalece nossas redes de pesquisa e projeta o PPGEnf como espaço de produção científica comprometida com realidades complexas e com a ética do cuidado”. E acrescentou: “No HU-Furg, essa presença qualifica o Hospital Universitário como cenário de formação avançada, intercâmbio técnico-científico e integração ensino-serviço, reforçando sua missão como hospital de ensino vinculado à Ebserh e contribuindo para a consolidação de capacidades institucionais em saúde nos dois países”.
Em 2026, seis dos 27 estudantes aprovados para mestrado e doutorado já chegaram ao município. A previsão é que os demais profissionais desembarquem ainda este ano. Também estão previstos cursos de curta duração nas áreas de Engenharia Clínica (Equipamentos Médico-Hospitalares), com três alunos, e Virtualização de Servidores, com um aluno, em parceria com a equipe de Tecnologia da Informação do Hospital.
Para a mestranda angolana Márcia Umba, a experiência representa mais do que uma qualificação acadêmica. “Fui agraciada com esta bolsa para frequentar o mestrado em Ciências de Enfermagem, resultado de parcerias com instituições brasileiras de reconhecida excelência, como a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a Furg e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Trata-se de um investimento estratégico do Estado angolano na formação de recursos humanos em saúde”, destacou. Segundo ela, a iniciativa integra um protocolo financiado pelo Banco Mundial e prevê que os profissionais retornem ao país de origem mais qualificados. “Somos chamados a regressar com mais competências, maior rigor técnico e sentido de missão, tornando-nos formadores e multiplicadores do conhecimento adquirido”.
Márcia ressaltou que o programa já alcança milhares de profissionais e tem como meta ampliar a capacitação até 2028, fortalecendo o Sistema Nacional de Saúde de Angola. “Esta oportunidade representa um marco na minha carreira. Regressarei com mais competências para contribuir diretamente na melhoria dos cuidados de saúde e na sustentabilidade do nosso sistema”, disse. Enfermeira vinculada à Direção Nacional de Saúde Pública em Angola, ela enfatizou ainda que a parceria entre os dois países reafirma o compromisso com a qualificação contínua dos profissionais. “Levo comigo o compromisso de aprender com rigor e desenvolver esse conhecimento no meu país, contribuindo para transformar a realidade da saúde angolana”, compartilhou.
Pesquisa, inovação e formação em rede
O HU-Furg integra a Rede Ebserh, que reúne 45 hospitais universitários federais em todo o país. No âmbito do acordo internacional, essas instituições compartilham experiências acumuladas na assistência, no ensino e na gestão hospitalar. Durante a programação de recepção no HU-Furg, os estudantes também conheceram o Setor de Gestão da Pesquisa e da Inovação Tecnológica em Saúde (SGPITS) da instituição, com apresentação das linhas de pesquisa e dos projetos em desenvolvimento na instituição.
O chefe do SGPITS, Luis Fernando Guerreiro, ressaltou a relevância estratégica da iniciativa: “A cooperação estabelecida entre Brasil e Angola, aliada à mobilidade de estudantes de pós-graduação ao nível de mestrado e doutorado, representa um avanço importante para o fortalecimento dos sistemas de saúde de ambos os países”. Ele acrescentou que “o convênio possibilita desenvolver pesquisas científicas colaborativas, com potencial para gerar evidências qualificadas, fomentar a inovação tecnológica e aprimorar práticas assistenciais, contribuindo de forma consistente para o avanço da saúde em âmbito bilateral”.
A cooperação prevê que, ao retornarem a Angola, os profissionais contribuam para o fortalecimento do sistema de saúde local, especialmente no enfrentamento de doenças como Covid-19, sarampo, malária e dengue, além de outras emergências sanitárias.
A chefe da Unidade de Gestão da Pós-Graduação (UGPOS), Poliana Carla Batista de Araujo, apresentou aos estudantes a estrutura acadêmica e os fluxos institucionais do programa. Segundo ela, “receber estudantes internacionais é uma honra e também uma grande responsabilidade institucional. Sabemos que iniciar uma pós-graduação em outro país traz desafios que vão além da sala de aula, como a adaptação cultural, a compreensão dos processos institucionais e a organização de documentações e da vida pessoal”.
Poliana destacou que, diante desse cenário, o acompanhamento próximo é fundamental. “Temos o compromisso de orientar esses estudantes com clareza sobre a estrutura do programa, prazos, responsabilidades e apoios disponíveis. Queremos que se sintam acolhidos e tenham as condições necessárias para aproveitar ao máximo a formação, desenvolver pesquisas de qualidade e se integrar às equipes. Nosso objetivo é que essa seja uma experiência enriquecedora e transformadora, fortalecendo também os laços institucionais estabelecidos pelo acordo”, pontuou.
Por Andreia Pires