Depois da reunião entre Lula e Trump, empresas brasileiras ganham tempo, mas não segurança
Encontro na Casa Branca reduziu a tensão entre Brasil e Estados Unidos, mas tarifas, câmbio e comércio exterior ainda seguem no radar.
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5/14/20266 min read


Encontro na Casa Branca reduziu a tensão entre Brasil e Estados Unidos, mas tarifas, câmbio e comércio exterior ainda seguem no radar. Para André Charone, especialista em negócios internacionais, o resultado foi positivo, mas está longe de encerrar os riscos para exportadores e investidores.
Alguns dias depois da reunião entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, na Casa Branca, já é possível avaliar o encontro para além das fotografias oficiais e das declarações diplomáticas. O saldo imediato foi positivo: Brasil e Estados Unidos evitaram uma nova escalada pública de tensão e abriram uma janela de negociação sobre tarifas comerciais. Mas, do ponto de vista econômico, a principal conclusão é outra: o Brasil ganhou tempo, não necessariamente segurança.
O encontro, realizado em 7 de maio de 2026, durou cerca de três horas e incluiu almoço oferecido pelo presidente norte-americano. Na pauta, estiveram tarifas, comércio bilateral, investigação comercial, segurança, crime organizado e minerais críticos. Ao fim da reunião, os dois países decidiram criar um grupo de trabalho para discutir soluções sobre o chamado “tarifaço” e apresentar propostas em até 30 dias.
Para o contador, professor universitário e mestre em negócios internacionais André Charone, a reunião deve ser analisada com menos euforia e mais pragmatismo.
“Passados alguns dias do encontro, fica mais claro que a reunião foi importante não porque resolveu o problema, mas porque impediu que ele piorasse imediatamente. O Brasil ganhou uma janela de negociação. Para as empresas, isso significa alívio momentâneo, mas não tranquilidade definitiva”, avalia Charone.
O tarifaço não acabou, apenas entrou em negociação
O principal tema econômico da reunião foi a ameaça de novas tarifas contra produtos brasileiros. Antes do encontro, havia preocupação de que os Estados Unidos pudessem avançar em novas medidas a partir de uma investigação comercial baseada na Seção 301, instrumento usado pelo governo norte-americano para apurar práticas consideradas desleais no comércio internacional.
Na prática, o grupo de trabalho criado após o encontro funciona como uma tentativa de adiar a crise e encontrar uma saída negociada. A leitura mais equilibrada é que o Brasil ganhou tempo para evitar novas tarifas, sem que isso represente uma solução definitiva.
“Esse é o ponto central: tarifa não desaparece por cordialidade diplomática. Ela desaparece por acordo, concessão, negociação técnica ou mudança de estratégia política. Enquanto isso não acontece, o risco continua no radar das empresas”, explica André Charone.
O impacto vai além dos exportadores
A ameaça tarifária preocupa porque os Estados Unidos são um mercado estratégico para produtos brasileiros de maior valor agregado. Diferentemente da China, que concentra boa parte das compras em commodities, os EUA compram também manufaturados, semielaborados, alimentos processados, aço, químicos, máquinas, produtos industriais e itens ligados a cadeias mais sofisticadas.
Isso significa que uma barreira comercial americana não afetaria apenas grandes exportadores. O impacto pode se espalhar por fornecedores, transportadoras, prestadores de serviço, empresas de logística, indústrias de embalagem e negócios menores que participam indiretamente da cadeia de exportação.
“Quando uma empresa brasileira perde competitividade lá fora, o problema pode aparecer aqui dentro. Ela reduz pedidos, renegocia contratos, segura investimentos e pode até cortar custos operacionais. O empresário que olha para a reunião Lula-Trump como uma notícia distante de política internacional pode estar deixando passar um risco concreto para sua cadeia produtiva”, afirma Charone.
Câmbio e planejamento empresarial entram na conta
Outro efeito importante está no câmbio. Relações comerciais mais tensas com os Estados Unidos tendem a aumentar incertezas e podem gerar volatilidade no dólar. Isso afeta exportadores, importadores e empresas que têm insumos, dívidas, contratos ou equipamentos cotados em moeda estrangeira.
Mesmo sem uma mudança imediata nas tarifas, a incerteza já altera decisões empresariais. Empresas tendem a rever preços, renegociar prazos, travar câmbio, adiar compras externas ou buscar fornecedores alternativos quando percebem risco de deterioração nas relações comerciais.
“A economia reage antes da política terminar de explicar o que aconteceu. Para o empresário, a pergunta prática é: se o dólar subir, se a tarifa aumentar ou se meu cliente americano pedir desconto, minha margem ainda fecha? Essa é a análise que precisa ser feita agora, enquanto a negociação ainda está aberta”, orienta Charone.
Minerais críticos: oportunidade ou repetição de um velho erro?
Além das tarifas, a reunião colocou em evidência a pauta dos minerais críticos e terras raras. Esses insumos são essenciais para setores como baterias, semicondutores, energia limpa, defesa, telecomunicações, carros elétricos e tecnologia de ponta.
Os Estados Unidos têm interesse em diversificar fornecedores e reduzir dependências estratégicas, especialmente em cadeias hoje muito influenciadas pela China. O Brasil, por sua vez, possui potencial mineral relevante e pode se beneficiar desse rearranjo global.
“O Brasil precisa evitar o roteiro conhecido: exportar matéria-prima barata e importar produto tecnológico caro. Minerais críticos podem ser uma grande oportunidade, mas apenas se vierem acompanhados de industrialização, pesquisa, processamento, infraestrutura e segurança jurídica”, analisa.
Segurança também virou pauta econômica
A reunião também tratou de segurança e combate ao crime organizado. Embora esse tema pareça distante do cotidiano das empresas, ele tem conexão direta com comércio exterior, fronteiras, logística, fiscalização aduaneira, lavagem de dinheiro e custos operacionais.
Para Charone, segurança institucional e ambiente de negócios caminham juntos.
“Comércio internacional depende de confiança. Se o país é visto como frágil no controle de fronteiras, na fiscalização ou no combate a ilícitos, a tendência é aumento de custo, burocracia e exigências adicionais para empresas sérias. O desafio é melhorar o controle sem transformar isso em mais entrave para quem produz e exporta legalmente”, afirma.
O que mudou alguns dias depois?
Passados os primeiros dias, o principal efeito concreto foi político: a tensão diminuiu e os canais de negociação foram reabertos. O governo brasileiro saiu do encontro com a percepção de que evitou, ao menos temporariamente, uma nova rodada de medidas duras por parte dos Estados Unidos.
Mas o efeito econômico ainda depende dos próximos passos. O grupo de trabalho terá de transformar a boa vontade diplomática em solução técnica. Enquanto isso, exportadores e investidores seguem em compasso de espera.
“O problema de uma trégua é que ela pode virar acordo ou pode virar apenas adiamento da crise. Por isso, as empresas não devem esperar o desfecho para fazer conta. O momento é de simular cenários: tarifa menor, tarifa mantida e tarifa maior”, recomenda Charone.
Uma relação estratégica demais para ser tratada no improviso
Brasil e Estados Unidos têm uma relação econômica complexa, que envolve comércio, investimentos, tecnologia, energia, defesa, agricultura, indústria, serviços e sistema financeiro. Por isso, qualquer tensão entre os dois países tende a produzir efeitos além da política externa.
A reunião entre Lula e Trump pode ser o início de uma reaproximação mais pragmática. Mas, para isso, será necessário transformar a sinalização política em previsibilidade econômica.
“O encontro foi importante, mas o teste real começa depois da reunião. O que interessa para a economia não é apenas se os presidentes conversaram bem, mas se as empresas terão regras claras, custos previsíveis e segurança para investir, importar e exportar.”
Alguns dias após o encontro, a leitura mais equilibrada é que Lula e Trump abriram uma trégua comercial. O Brasil ganhou tempo para negociar, mas ainda não eliminou o risco de novas tarifas. Para o setor produtivo, a reunião trouxe alívio, mas também um alerta: em um mundo cada vez mais protecionista, comércio exterior deixou de ser apenas uma agenda de grandes empresas e passou a ser uma variável decisiva para preços, margens, investimentos e competitividade.
A pergunta que fica agora não é apenas se a reunião foi boa. A pergunta é se, nos próximos 30 dias, Brasil e Estados Unidos conseguirão transformar a trégua em acordo.
Sobre André Charone
André Charone é contador, professor universitário, Mestre em Negócios Internacionais pela Must University (Flórida-EUA), possui MBA em Gestão Financeira, Controladoria e Auditoria pela FGV (São Paulo – Brasil) e certificação internacional pela Universidade de Harvard (Massachusetts-EUA) e Disney Institute (Flórida-EUA).
É sócio do escritório Belconta – Belém Contabilidade e do Portal Neo Ensino, autor de livros e centenas de artigos na área contábil, empresarial e educacional.
Seu mais recente trabalho é o livro "Empresário Sem Fronteiras: Importação e Exportação para pequenas empresas na prática", em que apresenta um guia realista para transformar negócios locais em marcas globais. A obra traz passo a passo estratégias de importação, exportação, precificação para mercados externos, regimes tributários corretos, além de dicas práticas de negociação e prevenção contra armadilhas no comércio internacional.